Re: Jorge Pelicano - Documentário "Páre, Escute, Olhe"
Enviado: 18 fev 2010, 22:55
Metáfora do Tua em prol de uma causa
Deixar as pessoas a reflectir é o principal objectivo do filme “Pare, Escute, Olhe”. O seu realizador, Jorge Pelicano, esteve em Castelo Branco para mostrar o seu trabalho, já premiado em diversos certames de cinema.
“Depois do ‘Ainda Há Pastores’ eu queria fazer um trabalho mais aprofundado acerca da desertificação do Interior de Portugal”, refere o realizador ao Reconquista.
Este é um tema que o cativa, considerando que é um dos principais problemas da sociedade portuguesa. Por isso, decidiu tratar a Linha do Tua, para explicar e analisar essa desertificação. “Porque quando os comboios desaparecem, desaparecem também as pessoas. No fundo, utilizei a Linha do Tua como metáfora para estrapolar a desertificação”, explica.
Um ideia que já tinha abordado no seu primeiro documentário e que aprofunda neste.
Para dar mais força ao filme, foi buscar imagens antigas, notícias da época em que as carruagens foram levadas, declarações políticas com promessas que nunca chegaram a ser cumpridas.
“Temos que voltar um pouco atrás e ouvir aquilo que os responsáveis políticos, na altura, diziam, fazendo uma comparação do que prometeram e do que fizeram. Esse é um outro problema do país: é que por vezes promete-se muito e, mais tarde, faz-se de maneira diferente, ou prometem-se coisas que não se cumprem. Era importante perceber o que as pessoas pensavam anteriormente e o que pensam agora”, adianta.
Neste documentário, Jorge Pelicano coloca-se ao lado do povo. Assumidamente, como afirma, é um filme parcial. “Como realizador de documentários é possível fazer isso, porque acho que é importante darmos o lado do povo, das pessoas que sofrem as consequências das decisões políticas e de certa maneira é um lado que não aparece nas televisões”, frisa.
Ao colocar-se ao lado do povo, o realizador entra em confronto com a classe política, considerando que as suas decisões não estão de acordo com as pretensões das pessoas. Era importante, para ele, dar esse lado mais da terra, das aldeias, das pessoas que vão ficar sem transporte.
O documentário apresenta duas fases distintas: a linha desactivada e a linha que apesar de ter pessoas poderá seguir o mesmo caminho.
“A ideia é mostrar o que originou o desaparecimento do comboio naquele primeiro troço: a desertificação, o despovoamento, o abandono. Depois mostra a parte activa para explicar que, no fundo, se forem seguidas as mesmas políticas do passado, o destino será idêntico”, concretiza.
Tudo em nome de um progresso, não para as pessoas da região, mas normalmente para o Litoral.
Jorge Pelicano, nos dois documentários que realizou, como já se disse, teve como ponto de partida a abordagem à temática da desertificação. Um problema que, como o próprio destaca, lhe interessa pela gravidade da situação.
“A desertificação é má não só para o Interior do país, que fica sem as pessoas e sem a sua cultura, mas também é má para o Litoral, que fica superpovoado e com excesso de população nas grandes áreas. Isto proporciona má qualidade de vida quer num local, quer no outro”, argumenta.
Daí que considere fundamental haver um momento de reflexão. “Um momento de parar escutar e olhar. O filme não tenta convencer ninguém. Essencialmente tenta levar as pessoas a reflectir sobre onde estamos e para onde queremos ir. Dá uma visão a longo prazo, porque infelizmente quem decide tem uma visão a curto prazo, uma visão a quatro anos. O que quero dar às pessoas é informações, mas com uma visão que faça reflectir”, diz Jorge Pelicano.
E recorda as declarações de Cavaco Silva no distrito de Castelo Branco, onde afirmou ser fundamental apostar naquilo que as regiões têm de bom, na sua cultura, no seu património, nos seus agentes económicos.
Se com o primeiro filme Jorge Pelicano demorou cinco anos, com este levou dois anos e meio. Se com o primeiro recolheu 80 horas de material, agora recolheu 150.
“Isso também faz parte da minha forma de trabalhar, porque eu não faço pesquisa. Parto directamente para o terreno, sem qualquer tipo de guião, em bruto, para sentir a realidade e a população, o pulsar das histórias. E vou filmando, sempre com as histórias. Não faço pesquisa prévia, vou directamente com a câmara e isso faz com que acabe por filmar muito. Houve muitas das histórias que não tinham tanta força. Houve outras que tive de abdicar em nome da causa e do trabalho global. A parte mais dificil foi, de facto, a montagem”, conclui.
http://www.reconquista.pt/noticia.asp?i ... on=noticia